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    Histórias do sertão

    Caminhava como se não quisesse chegar a lugar nenhum, caminhava só para ver o tempo passar. Sua cabeça já tomava forma do fundo da lata, e seus catorze anos já eram mais agoniantes do que uma vida inteira naquele pedaço seco de chão. Já acordava exausta; os olhos tinham a grandeza de uma saudade, saudade do que nunca teve, saudade de seus vagos sonhos. E seu franzino corpo parecia não entrar em acordo com seus pontudos ossos fazendo de seus movimentos uma dança desajeitada.

    Às vezes sob o sol escaldante do meio-dia, ela tentava recordar os números que aprendera na escola e se punha a contar os passos que faltavam para chegar ao açude mais próximo, logo desistia desanimada em perceber que não sabia mais as lições da cartilha.

    Assim que chegava tratava logo de encher a velha lata antes que outros moribundos feito ela levassem o pouco que lhe pertencia.

    Em uma dessas tardes em que caminhava sem prazer algum, decidiu reparar em cada ponto que cruzasse seu caminho. Verdade que tudo já lhe era bem comum, uma morbidez que parecia sempre ter existido, pedaço perdido no nada, esquecimento de Deus. Mas decidida, ficou atenta a tudo o que lhe cercava.

    Antes de virar as costas para a água barrenta do açude, chegou mais perto de sua borda e seus olhos antes exprimidos pelo forte calor deram um salto e reluziram um brilho sem igual. Pela primeira vez sentia que sabia de um segredo, uma descoberta só dela, um milagre da vida que lhe ofereceram de presente. O leito do açude estava coberto por uma camada de pequenas "cobrinhas" que se contorciam rapidamente. Movimentos aleatórios ,uma pintura viva a seu dispor. Saltitando foi procurar outros segredos. Viu a beleza de troncos retorcidos com raízes quebradiças aos seus pés. Cactos a acompanhavam pela longa extensão do caminho, assim como os verdes mandacarus e as folhas de palma que eram a última esperança para as restantes cabeças de gado. Esses sim ela tinha pena. As carniças que cobriam a terra pareciam um aviso para os que ficaram; as costelas saltando para fora, a pele cheia de moscas, e os olhos perdidos no nada. Triste fim dos que foram feitos para servir o homem, e que agora são predestinados a encarar o mundo que aos poucos desaparece aos olhos.

    Havia abaixado a cabeça de tristeza, vagueando por cenas misturadas em sua mente, sua alma tinha o peso do menino chorando de fome, mainha com o rosto de dor, painho desesperançado, as flores morrendo e os fortes lampejos do sol. “Cada um tem a vida que Deus deseja”, e o pouco que tinha já era bastante comparado a desgraça que acontecia com o gado. Que seja feita a vontade do Criador.

    E o caminho árduo que percorria diariamente escondia pequenos milagres nunca antes reconhecidos. Pedrinhas de diferentes tamanhos e tonalidades de marrom, mesclando suas cores com a terra sem vida. Os joelhos postos no chão como quem fosse rezar, as mãos se entrelaçaram elevando um punhado delas. Colocou no bolso. Seria um presente. Presente para seu irmão mais novo, que não parecia nem gente, punhado de ossos encobertos com uma pele seca e um bucho que a qualquer instante podia arrebentar. Queria ao menos oferecer alegria a alguém, sendo que a própria ela havia perdido sem nunca ter tido.

    A passagem já não era tão sofrida; o tilintar das pedrinhas no bolso do vestido soavam como uma melodia esperançosa de mais achados, sim, agora sabia que não haveria mais nenhum dia igual ao outro, não haveria mais troncos retorcidos com a mesma forma, e nem bois sofridos como um dia anterior, porque ela entendera que tudo se transformara a todo o momento, nada no mundo poderia permanecer igual ao que já tinha sido no passado. Foi como se algo grandioso se revelasse dentro de seu intimo, algo que sempre esteve a ponto de desabrochar como flores no canteiro, como a vida berrante de um açude sangrando.

    Nuvens passavam sobre sua cabeça, e ela ria, ria como se pudesse aprisionar aquele instante , como se só ela tivesse esse prazer. E viu guerras, viu deusas amamentando seres humanos e animais, viu bichos exóticos e corações luminosos. Aquilo lhe encheu o peito. Como havia sido possuída pôr tamanha cegueira incapaz de enxergar todos os seus sonhos, tudo o que desejava ali, todos os dias a sua frente?

    Foi naquela tarde que soube que sua vida havia mudado; algo limpou suas vistas; vontade de seguir em frente, de descobrir os milagres em cada pedaço de terra.

    Continuou hipnotizada por toda a imensidão acima de sua cabeça, e recostada em meio a troncos e terra adormeceu serena. Teve sonhos pesados; sua mente foi enlaçada por buracos profundos, por águas revoltas, por homens nunca vistos. Despertou calmamente apesar dos angustiantes momentos, peso de corpo, cabeça dolorida. Mal se mexeu, apenas levantou as pálpebras girando os olhos ao redor. Levantou bruscamente ao se dar conta da noite que havia caído sem sua percepção. O medo tomou-lhe as entranhas. Pensou em seu pai. Em sua fúria. Como explicar o que tinha acontecido naquela tarde sem despertar pensamentos maldosos?

    Seu coração batia velozmente. Mantinha total obediência aos seus pais, e pela primeira vez se sentia fora dos trilhos. Chegando perto de seu casebre, os sentidos estavam atentos. Tentou imitar os bichos da noite, sem deixar rastros e ecoando o mínimo ruído possível. Esforços inválidos. E quando se dera conta de que havia deixado a lata de água na beira do açude, era tarde demais até para uma respiração, seu pai já estava a posto na porta, braços cruzados, com uma tira grossa de couro na mão. Apenas ouviu o choro de seus irmãos certamente ao ver a cena a sua frente; o couro estalou em cada parte de seu corpo; depois de algum tempo a dor cessara; viu o rosto de sua mãe banhado em lágrimas, olhou para seu pai, devia estar possuído pôr uma força contrária a que tinha a invadido hoje a tarde. Seu ralo vestido embebedou-se de sangue; sentia a boca seca, os olhos úmidos e pesados, mechas de seu cabelo já estavam no chão. As pedrinhas voaram como em uma dança natural. Escuridão.

    Abriu os olhos. Girando-os ao redor se viu em sua cama, imóvel, impossibilitada de qualquer movimento. Dor cortante, se sentia esmagada. Chorou baixinho. Não queria pensar em nada, e muito menos em seu pai, sentiu raiva, vontade de gritar, de cravar as unhas naquele rosto rude que ela havia devotado um amor inocente. O peso da traição invadiu seu coração, porque era traída que se sentia. Traída por seu pai, por sua mãe que não fizera nada para ajuda-la, e mais ainda, por seus sentidos, por sentimentos que haviam enchido seu peito de esperanças um dia anterior. Fez algum esforço para se virar, mas a dor era maior que qualquer impulso. Estava faminta. A casa estava em silêncio. Tinha total certeza que ninguém mais estava dormindo uma hora daquelas. O que faria naquele estado sem a presença de ninguém por perto? Tinha que se levantar e tentar buscar forças para sentir a vida pulsando lá fora. Sua cabeça estava rodando, era como se tivessem enviado facas nas partes mais frágeis de seu corpo.Com as costas moídas e pernas bambas, usou de apoio à parede e ergueu o bocado de ossos restantes. Foi se arrastando sobre seus pés até a cozinha, logo viu que tinha se enganado, seu pai falava desordenadamente com sua mãe, o que lhe provocou uma tristeza arrebatadora. Assim que a viram, os olhos denunciaram o que vinha pela frente. Seu pai a agarrou pelo braço violentamente, enquanto sua mãe em prantos implorou:



    - Valha-me Nossa Senhora! Você vai matar nossa “fia”! Pare com essa desgraça “homi”!

    - Prefiro ela morta, não tenha filha rapariga não! Fui hoje mesmo assuntar com os amigos do rancho, e me disseram que essa moleca tava no meio da terra dormindo, toda esparramada, mostrando as pernas nesses trapos que ela usa! Tava fazendo safadeza aos olhos de quem quisesse ver! E quando descobrir o cabra que ela deu confiança acabo com ele também! Agora ela vai aprender!

    - Não, ela já está doente depois da surra que tomou ontem !Não vai agüentar, é menina fraca!

    - Vai aprender que nessa família não se cria mulher da vida não!



    Foi fortemente empurrada na parede; o sangue escorria da cabeça. Seus olhos já estavam embaçados, a mão pesada de seu pai espremeu seu corpo. Foram tapas, socos, e ela ainda pode ver o ódio no olhar. Não podia mais se defender, se entregou ao instante. Viu seu pai se afastando, enlouquecido com seu próprio ato; sua mãe desesperada ajoelhou rente ao seu corpo e rezou fervorosamente, seus irmãos choravam em outro canto. Ela se sentiu calma, uma paz invadiu sua alma, ou o que anima um corpo. Fechou os olhos e dormiu sob o sono dos séculos.


    Inara Vechina
    Publicado no Recanto das Letras em 21/03/2006
    Código do texto: T126407

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